Antes de pensar na G2, Immortals precisa encarar os próprios fantasmas

Antes de pensar na G2, Immortals precisa encarar os próprios fantasmas

Avassaladora no primeiro turno da Pro League, line-up chega apática ao mundial precisando resgatar suas virtudes

Por Luiz Queiroga


Estamos às vésperas da disputa da etapa mundial da Pro League, mas parece que foi ontem que a comunidade de Tom Clancy’s Rainbow Six Siege vivenciou o Six Major, em Paris.

Naquela ocasião, não era exagero nenhum afirmar que a Immortals era o time brasileiro em melhor fase. A line-up liderada por Novys estava em evolução constante e dava claros sinais de que atingiria o auge técnico e tático naquele mundial.

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O Major, porém, foi um divisor de águas para a Immortals. A equipe que provocava o caos emperrou. Totalmente apática em comparação ao primeiro turno do regional da Pro League, a Immortals tem a obrigação de encarar os próprios fantasmas antes de pensar na temida G2 Sports, adversária na estreia do mundial a ser disputado nesse sábado (17), no Rio de Janeiro.

“O primeiro turno deles foi excelente”, reforçou o analista Otávio “Retalha” Ceschi. O diagnóstico, realmente, aponta para o torneio em Paris. “Após o Six Major, quando eles sentiram que entregaram alguns jogos, parece que o time voltou pro segundo turno meio apagado.”

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Em entrevista oficial ao site da Rainbow Six Siege Esports, a line-up foi inicialmente questionada exatamente sobre os erros cometidos no Major.

Nas palavras de Leone “oNe” Kayque, a Immortals desde então teve um grande aprendizado e vem em fase de correção. “A melhor coisa é aprender com os erros. Erramos muito e tenho certeza que estamos consertando esses erros. Sempre aprendemos ainda mais após perder um jogo importante em que estávamos muito confiantes.”

Só que se analisar o returno da Pro League, essa dita evolução não tem sido tão significativa.

A Immortals está totalmente apática em comparação ao primeiro turno da Pro League

O QUE DEIXOU DE FUNCIONAR?

Para compreender os erros atuais, basta olhar para o que dava certo antes numa Immortals que estava bastante alinhada na primeira fase da Pro League, formada por Daniel “Novys” Novy, Jaime “Cyb3r” Junior, Diogo “D1OGO1” Vieira, Leone “oNe” Oliveira e Lucas “yuuK” Rodrigues.

“A Immortals conseguiu mostrar que a line-up tinha força e entrosamento, além de skill individual. E estava trabalhando em equipe, com comunicação”, destacou Retalha.

As virtudes estavam bem sólidas após um início não muito empolgante de regional latino-americano. Num primeiro momento, a Immortals dependia muito de Novys para vencer os confrontos. Ao decorrer do primeiro turno, porém, a equipe se moldou num estilo consistente de jogo.

trio de peso

Quando a line-up ganhou o reforço de yuuK, até então coach, o ponto de equilíbrio não era mais unicamente Novys. O jogo da Immortals passava muito pelo tripé formado por Novys, yuuK e D1OGO1.

Os papéis táticos estavam muitíssimo bem definidos: Novys era o responsável por abrir vantagem numérica nos mapas; yuuK tinha que lidar com os plants; e D1OGO1 era o respiro necessário, sendo o jogador que segurava a bronca adversária.

Esse tripé, após o Six Major, se desmontou e acarretou na queda de rendimento no returno da Pro League. A identidade foi perdida uma vez que principalmente Novys perdeu sua principal característica de top-fragger.

No primeiro turno do regional, ele contabilizou nada menos do que 72 kills, gerando, assim, um K.D de 1.64. Entre as rodadas 8 e 14, porém, os números caíram para apenas 47 abates e um K.D de 0.98. 

A queda de rendimento de Novys tem explicação: sobrecarga

Além disso, Novys literalmente abria passagem para o time já que tinha uma taxa enorme de first kills - que caiu pela metade de um turno para o outro: os 18 abates nesse quesito contrastam com os nove cometidos recentemente. 

Trata-se do desgaste da fórmula baseada na ponta do tripé mais firme até então. Novys sentiu o peso da sobrecarga - o que até afetou a forma de jogar. “Ele está trabalhando muito sozinho por algum lado do mapa, às vezes sem ter um drone no pé”, comentou Retalha

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“E a gente sabe que quando você tá ali no ataque, é preciso ter o apoio de algum companheiro para te dronar ou estar no re-frag. E a Immortals perdeu vários jogos por conta desse fator.”

Peças também fundamentais, yuuK e D1OGO1 também tiveram queda de rendimento. As complicações para entrar ao bombsite descentralizou a tarefa de plants. Foram quatro desativações no primeiro turno contra apenas uma no segundo.

Assim, outros pro players se viam na missão de iniciar o desativador, principalmente oNe, que totalizou quatro plants no returno.

No caso de D1OGO1, de um modo geral, o tempo de sobrevivência nos mapas encurtou. Boa estatística para representar essa efetividade em mapa é o de K.P.R, que caiu entre os dois turnos: a média de 1.18 foi para 0.74.

Antes fôlego necessário para a Immortals, D1OGO1 está em baixa

O QUE DEIXOU DE FUNCIONAR?

Ao se olhar no espelho, a Immortals não pode apenas focar os defeitos e esquecer suas principais virtudes. É preciso se apegar ao que se tem de melhor para encarar a G2, considerada a melhor line-up do mundo na atualidade.

E uma das principais características da Immortals pode ser o elemento certo para desafiar a poderosa organização europeia, que é…

agressividade

Agressivar é verbo presente no DNA da Immortals. Se na Pro League a equipe não encontrou consistência, é possível pegar o empate diante da Team Liquid na terceira rodada do Brasileirão de R6 para ver que o time não perdeu sua principal virtude.

Até mesmo pela estreia nos playoffs mundiais bem próxima, esperava-se uma Immortals jogando de forma mais padrão e escondendo o jogo no campeonato nacional. Acontece que a postura foi totalmente contrária e tivemos Novys e companhia concentrados e dispostos a abusar principalmente da agressividade nos mapas de Oregon e Fronteira.

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O tripé mudou de peças. Com D1OGO1 em baixa, o trio que pode fazer diferença para a Immortals diante da G2 é composto por Novys, Cyb3r e yuuK. É uma formação que aposta muito no trabalho de Novys e Cyb3r principalmente.

“Eles precisam estar bem afiados como entry fragger, mas, se estiverem trabalhando sozinho, o time adversário consegue counterar”, alertou Retalha. “Não é difícil, basta colocar dois marcadores em cima deles de forma cruzada.”

yuuK tem a função de blindar Novys e Cyb3r

E é aí que entra yuuK. Totalmente na contenção, ele é o responsável por blindar a dupla. O suporte, inclusive, quando o time joga na defesa, até ganha mais liberdade pelo mapa para ajudar Novys e Cyb3r muito por conta do trabalho de oNe como âncora.

Outro fator dessa agressividade da equipe é a ousadia em picks. Diante da Liquid, a Immortals não se importou em arriscar posicionamento mais avançado para tentar garantir a first kill antes mesmo dos adversários se aproximarem do local. Em duas rodadas de defesa em Oregon, por exemplo, Cyb3r pegou DOC unicamente para essa tarefa.

Claro que tamanha ousadia pode penalizar o time, como aconteceu logo no primeiro round, mas também pode desestabilizar por completo o adversário, como na quarta rodada, quando yuuK aplicou nada menos do que um ace.

deixa que eu assumo!

Um dos principais problemas da Immortals foi a falta de consistência ao decorrer do returno da Pro League em termos de line-up. A saída de pX para a entrada de yuuK parece que tinha acertado as coisas coletivamente - mas aí veio o Six Major.

De lá para cá, a equipe não deu sequência a um time titular. Tivemos o revezamento entre yuuK, pX, oNe e D1OGO1 em determinados momentos, seja pelo regional latino-americano ou então pelo BR6. A troca de cadeiras foi mais por falta de encontrar um equilíbrio do que para dar rotatividade ao elenco.

Em meio a essa inconstância, Cyb3r e Novys se tornaram intocáveis. E aí que entra um grande valor, afinal, com o sobrepeso que Novys passou a sofrer, quem se destacou na segunda metade da Pro League foi Cyb3r.

Antes entry fragger secundário, Cyb3r ganhou protagonismo (Foto: Rainbow Six Esports)

O protagonismo passou a ser do entry-fragger secundário, que somou 61 kills e um K.D de 1.64 no returno. Ele tem características diferentes de Novys, então por isso que talvez não seja poder de fogo suficiente para a Immortals no mundial - ainda mais diante da G2.

Por mais que seja necessário que a dupla esteja em dia no Rio de Janeiro, entretanto, Cyb3r pode ser a válvula de escape necessária. Retalha aposta nessa importância moral e técnica do pro player. “O Cyb3r vem sendo mais decisivo nas últimas rodadas. A Immortals pode contar mais com ele.”

Qual será a line-up titular na disputa da Pro League é um mistério, mas não será de se estranhar a volta de pX ao time - formando, assim, a composição que enfrentou a Team Liquid pelo BR6 recentemente.

Ele, desde que saiu do time titular ainda na primeira metade do regional, voltou bem quando foi acionado. Casos do Dia #10 da Pro League e dessa terceira rodada do Brasileirão. Revigorado, pX é outro que aparenta não ter problema nenhum em assumir a responsabilidade para a disputa do mundial.

Cyb3r confiante e pX revigorado: energia e momento da dupla podem ser diferencial contra a G2

Dessa forma, a Immortals sabe que pode fazer frente à G2. A margem de erro é de praticamente contra os melhores do mundo. É preciso ter muita autocrítica e concentração para espantar os fantasmas, realçar as virtudes e estar num dia inspirado para lidar com a estreia na Pro League.

"Os brasileiros tem sido uma pedra no sapato da G2 desde 2017, tudo porque jogam contra a G2 como se não tivessem nada a perder e acho que esse é o caminho para Immortals se sair vitoriosa, surpreender e fazer o inesperado", comentou André Meligeni ao site oficial da Ubisoft.

Nesse confronto entre Davi e Golias, todo o favoritismo está do lado dos nórdicos, mas quem sabe, em território tupiniquim, a Immortals não jogue água no chopp da G2.

 

Luiz Queiroga é jornalista da ESL BRASIL. Siga-o no Twitter!

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